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15 janeiro 2013

LuAr Biology


Capitulo 28


- Tudo bem, professor – ela concordou, me lançando um olhar surpreso, e entrou no ônibus. O professor Aguiar passou uma mão pelos cabelos, usando sua técnica mais que aprovada de me tratar com indiferença, e eu apenas o ignorei, entrando no ônibus logo depois. 
Me sentei num dos primeiros assentos, evitando me misturar demais com o povo fútil que provavelmente começaria uma bagunça no fundo do ônibus. Peguei meu iPod de dentro da bolsa e coloquei a primeira música mal educada que achei no volume máximo, com uma cara espontânea de poucos amigos. Talvez porque eu realmente não quisesse estar ali, num ônibus cheio de gente que eu odeio, rumo a um lugar distante, cheio de mato, terra e bichos. Talvez porque tudo que eu quisesse era estar com Mica e resolver as coisas entre nós, pra exterminar o aperto em meu peito que quase me sufocava. 
Não demorou muito e o professor Hammings entrou no ônibus, acompanhado do Aguiar. Contaram rapidamente o número de pessoas, pra ter certeza de que todos estavam no ônibus, e assim que terminaram, fizeram sinal para que o motorista começasse a dirigir. Tirei um dos fones, entediada, para (infelizmente) ouvir o que o Aguiar estava dizendo enquanto o veículo andava os primeiros metros em direção à reserva. 
- Tentem não se afastar do grupo, o local é enorme e bastante confuso, portanto todo cuidado é pouco – ele avisou, sério, e eu notei que seus olhos estavam especialmente castanhos hoje, talvez porque estivessem realçados pela blusa da mesma cor - Não se distraiam com os animais ou plantas exóticas que virem e prestem atenção nas explicações que os guias lhes darão, informações como aquelas não existem nos livros escolares. Qualquer problema, basta chamar o professor Hammings ou eu. 
Mudo, o sr. Hammings apenas assentiu devagar para todos que o observavam, e os dois professores se encaminharam na direção de seus assentos. Que, por sinal, ficavam bem à minha frente. Eu já devia saber que aquela excursão seria ainda pior do que eu imaginava. 
Coloquei os dois fones, batendo os pés de acordo com a bateria da música, e me contive a observar o céu nublado. Sem ter que aturar ninguém sentado no assento ao meu lado, silenciosamente ocupado pela minha mochila, não demorei muito tempo pra me distrair com os prédios e árvores que passavam rapidamente pela minha janela. Logo meu pensamento voou até Mica, e me peguei pensando no que ele devia estar fazendo àquela hora. Dando aula, provavelmente. Tentei evitar que minha mente criasse qualquer tipo de imagem da excursão do dia anterior, ou de Mica sendo consolado pela srta. Keaton, mas foi impossível. Deus, por que raios eu tinha que sentir ciúmes daquela mexerica desbotada? Ela ser bonita, atraente e um pouco viciada demais em testosterona definitivamente não deveriam ser razões preocupantes o suficiente. 
Algum tempo depois, senti uma mão tocar meu ombro devagar, e pulei de susto. Olhei na direção da pessoa, e dei de cara com Arthur Aguiar. Tirei um dos fones contra a minha vontade e esperei ele falar. 
- Trouxe celular, Blanco? 
Assenti, sentindo um gostoso perfume masculino invadir meus pulmões, e ignorei o fato de que só podia ser o dele. 
- Pode me passar o número? – ele perguntou, parecendo um pouco decente pela primeira vez na vida - É pro caso de você se perder na reserva. 
- Eu não vou me perder – respondi, sem muita vontade de dar meu número de celular pro Aguiar – Pode ter certeza. 
- Mesmo assim, são normas da escola – ele insistiu, com um sorrisinho cordial, e eu tive que dar o número. Escolinha chata a minha, pelo amor de Deus. Assim que terminou de gravar meu número em seu celular, ele agradeceu rapidamente e voltou a se sentar ao lado do Hammings. Mas esqueceu de levar uma coisa com ele. A porcaria daquele perfume. 
Odores a parte, continuei a ouvir música e pensar em qualquer coisa que passasse pela minha cabeça (lê-se: Micael Borges) por todo o trajeto. Pouco tempo depois de deixarmos a escola, uma chuva fina começou a cair, explicando o céu nublado que já durava dois dias. E pelas nuvens negras que pairavam mais à frente, o tempo não melhoraria tão cedo. 
- Pessoal, chegamos à reserva ambiental - o professor Aguiar disse algumas horas depois, enquanto o motorista entrava num grande estacionamento e eu guardava meu iPod na mochila – Antes de sair, peguem as capas de chuva que trouxemos devido ao tempo chuvoso que estava previsto pra hoje. Eu vou distribuí-las na porta do ônibus. 
Legal, ia ter que fazer contato com aquele idiota mais uma vez, e mal tínhamos chegado à reserva. Peguei minha mochila e a coloquei direito nas costas, com uma alça em cada ombro (diferentemente do que eu costumava fazer), já de pé. Esperei até que a aglomeração no corredor do ônibus diminuísse e me encaixei na primeira brecha que encontrei. 
- Capa de chuva, Smithers – ouvi o professor Aguiar dizer assim que Kelly, que estava bem à minha frente, passou por ele – Não vai querer que as horas arrumando o cabelo sejam em vão, vai? 
Eu sei que o odeio e já cansei de expressar meu desprezo por ele, mas não deu pra não rir daquele comentário. Até que ele era engraçado quando tirava sarro das pessoas certas. E tinha um perfume viciante também. Não que isso importe. 
Ainda rindo disfarçadamente da cara de joelho da Smithers ao pegar sua capa, peguei a minha, dobrada dentro de um pacote plástico, evitando contato visual com o sr. Aguiar. Uma simples piadinha não o tornaria um cara aceitável no meu conceito. 
Burocracias à parte, logo estávamos dentro da reserva, ridiculamente iguais com nossas capas transparentes debaixo da chuva, que tinha aumentado consideravelmente. Aquele lugar era enorme, fato. Acho que nunca estive num lugar tão cheio de vegetação e terra na vida. O único cheiro que conseguia sentir era o de terra molhada, tão forte que minha cabeça doía um pouco. Um dos guias começou a nos levar reserva adentro, e eu apenas seguia o fluxo, já querendo que aquela excursão terminasse logo. 
- Antes de começarmos a conhecer a reserva, vamos lhes mostrar um pequeno documentário sobre os efeitos do aquecimento global e da exploração prejudicial do homem à natureza, e também algumas medidas quem favorecem o desenvolvimento sustentável – explicou o guia, quando chegamos a uma grande sala onde uma tela de cinema ocupava uma parede que ficava de frente para várias poltronas enfileiradas. 
Eu realmente odiava vídeos assim, todo mundo já estava careca de saber de tudo que passava neles. Com cara de nada, apenas me sentei numa poltrona qualquer, numa das pontas mais próximas da porta de saída. Quanto menos eu tivesse que gastar energia ali, melhor. 
O filme logo começou, e eu nem me dei ao trabalho de ouvir e/ou ver o que estava passando. Cutucando uma pele quase solta e dolorida que estava incomodando o canto da minha unha, esparramada na poltrona e com cara de mau humor, eu esperava ansiosamente até aquela porcaria acabar e podermos finalmente começar a observar as espécies exóticas de plantas e animais que existiam na reserva. Tudo ia relativamente bem, até que eu senti alguém se aproximar de pé ao meu lado. Não precisei nem erguer meu olhar pra saber quem era: o perfume masculino (que não era de se jogar fora mesmo) já denunciava sua identidade. 
- Dá pra parecer menos entediada? – ouvi o sr. Aguiar cochichar entre dentes, abaixando um pouco seu tronco para ficar com a cabeça mais próxima de mim e se fazer ouvir. Revirei os olhos, de saco cheio, e me virei lentamente pra ele, até encontrar seus olhos. 
- Dá pra fingir que eu não existo? – sussurrei, com uma expressão de desprezo sincera, e pude ouvi-lo suspirar antes de se afastar, em tom de derrota. Isso mesmo, sai de perto. Seu perfume mais do que aceitável não vai me convencer. 
Quinze minutos depois, eu ainda me encontrava naquela mesma posição, com a cabeça apoiada numa mão e quase dormindo. Olhei vagamente pra enorme tela à minha frente, tentando não adormecer, e vendo que não ia agüentar ficar acordada ali por muito mais tempo, resolvi tomar uma atitude drástica. Me levantei sorrateiramente, trazendo minha mochila comigo, e caminhei até o professor Hammings, que estava sentado na primeira fileira ao lado do professor Aguiar. 
- Professor, posso ir ao banheiro? – falei, baixinho, fazendo cara de cachorrinho sem dono – É urgente. 
- Estamos na metade do documentário, Blanco – ele murmurou, com sua habitual expressão afetada – Tem certeza de que precisa ir? 
- É realmente necessário – respondi, ignorando o olhar do sr. Aguiar praticamente me queimando de tão intenso. O sr. Hammings ergueu uma sobrancelha, pensativo, e logo resmungou, derrotado: 
- Saindo dessa sala, é a primeira porta à direita. 
- Obrigada – sorri, aliviada, e saí de fininho pela porta. A chuva tinha dado uma trégua mínima, deixando apenas uma garoa fina cair, o que já me dava uma certa liberdade pra respirar um pouco de ar fresco sem me molhar. Pelo amor de Deus, nunca mais pretendia voltar àquela reserva se fosse pra assistir a documentários como aquele. Fala sério, até uma criança de cinco anos sabe que a fumaça que sai das chaminés das fábricas prejudica a qualidade do ar. 
Mais entediada do que nunca, peguei meu celular do bolso da mochila pra ver as horas, e meu tédio só aumentou quando vi que ainda faltava muito pra irmos embora. Lógico, sua anta, acabamos de chegar. Aposto que se Mica tivesse vindo, tudo estaria sendo muito melhor, e eu estaria nas nuvens, sorridente e cheia de paciência pra agüentar qualquer chatice que aquele lugar me proporcionasse. Suspirei tristemente, tão a fim de ir embora que toparia voltar a pé pra casa, e tive uma idéia. Digitei rapidamente o número do celular de Sophia e apertei o botão para chamar. Uns dois minutinhos de conversa ao telefone com alguém civilizado seria no mínimo revigorante. Assim que ouvi uma gravação da operadora dizendo que meu celular estava sem sinal, quase o deixei cair de susto por causa da segunda voz que surgiu atrás de mim. 
- Não achou o banheiro, Blanco? – o sr. Aguiar perguntou, irônico. Me virei depressa, cancelando a chamada, e logo seus olhos castanhos entraram em foco. 
- Que é, tá me seguindo agora? – rosnei, sem a menor paciência, e fazendo um breve silêncio ocupar nossos ouvidos por alguns segundos. 
- Se eu não soubesse dessa sua... Simpatia com professores de biologia, suas respostas atravessadas seriam desanimadoras – ele finalmente respondeu, com um cinismo impressionante no rosto, típico de alguém que sabia demais. Meus olhos se arregalaram um pouco sem que eu percebesse, minha garganta secou, meu coração acelerou, tudo ao mesmo tempo. Ele não sabia. Ele não podiasaber. 
- Do que você tá falando? – perguntei, usando toda a minha capacidade de mentir para controlar meus músculos faciais e não me entregar. O professor Aguiar deu uma risadinha irônica e cruzou os braços. 
- Ah... Você não sabe do que eu tô falando? – ele repetiu, com os olhos cravados nos meus e dando um passo na minha direção – Então bastou uma briguinha pro Mica ser carta fora do baralho? Rapidinha você, hein. 
Senti uma raiva imensa subir pela minha garganta, por pouco me fazendo voar naquele desgraçado. Merda, ele sabia. Provavelmente Mica tinha lhe contado tudo, enganado por sua pose de bom moço. Até da nossa briga de dois dias atrás ele já sabia! Respirei fundo, controlando a fúria engasgada em minha garganta, e com a voz firme, retruquei: 
- Me deixa em paz. 
- Parece que agora você sabe bem do que eu tô falando – o sr. Aguiar sorriu, com um olhar no mínimo divertido – Podemos conversar de igual pra igual. 
- Eu nunca vou ser igual a você – falei, quase esmagando meu celular em minha mão, que agora estava fechada num punho – Preferiria me matar a viver tendo nojo de mim mesma. 
- Não venha se fazer de coitadinha, Blanco, eu sei muito bem as besteiras que você tem falado sobre mim – ele disse, dando mais um passo na minha direção – O Borges me conta tudo sobre vocês, cada detalhe, cada palavra de cada conversa, e eu não gostei nada de saber que você anda colocando as garrinhas de fora. 
- Garrinhas de fora? Eu? Tem certeza de que essa fala não era pra ser minha? – eu reclamei, inconformada, com a testa franzida e a voz um pouco mais alta – Se alguém aqui anda aprontando alguma, esse alguém é você! 
- Não sei se você sabe, mas é muito feio acusar alguém sem provas – ele falou, com a expressão carregada e um olhar irritado – Então eu acho melhor você ficar quietinha no seu canto se não quiser arcar com as conseqüências. 
- E que conseqüências seriam essas? Por acaso você tem provas contra mim? – perguntei, erguendo as sobrancelhas num tom intimidador, e como ele não disse nada, deixei todo o ódio reprimido transbordar – Na primeira tentativa de aprontar qualquer coisa, Aguiar, eu simplesmente entro naquela porcaria de diretoria e conto tudo que você já me fez, e que se danem as provas. Acho que a diretora não vai gostar nada de saber das suas estripulias, e aí vai ser a palavra de uma aluna indefesa contra a de um professor com fama de pedófilo. Mesmo que não te expulsem daquela espelunca, sua imagem de bom moço não vai durar muito tempo. 
Arthur ficou me encarando por alguns segundos, e eu senti em seu olhar ameaçador que tinha conseguido o que queria: deixá-lo furioso. Após longos segundos com o maxilar tenso, ele finalmente murmurou, cheio de raiva: 
- Pode me ferrar, mas pode ter certeza de que eu levo seu querido Borges comigo. 
Engoli em seco. Não, ele não teria como incriminar Mica, tomávamos todas as precauções possíveis e imagináveis. Definitivamente ele estava blefando. 
- Sabe o que eu acho? – perguntei, com um sorrisinho debochado e as sobrancelhas erguidas em tom de superioridade – Que você tem inveja do Borges. 
O professor Aguiar fez cara de incredulidade, como se Mica fosse um merda, o que só me fez continuar: 
- É isso mesmo, você se morde de inveja dele. E sabe por quê? Porque você nunca foi, não é e nunca vai ser nem metade do homem que ele é. E por ser tão mais homem que você, ele não precisou nem suar pra conseguir a garota que você sempre quis, mas nunca teve decência suficiente pra conseguir. 
Como eu previa, Arthur ficou com cara de nada, enquanto eu sorria maleficamente. Ele realmente era um tosco, era fácil demais deixá-lo sem resposta. Pra não ter que ficar aturando aquele bosta nem o documentário insuportável que passava dentro da sala, dei um passo em direção ao banheiro, mas assim que o fiz, senti sua mão firme envolver meu braço e me puxar devagar em sua direção até sua respiração bater em meu ouvido. 
- Você vai se arrepender de ter dito isso. 
Ergui meu olhar até o dele, desdenhosa, e ele me soltou violentamente. Arthur deu meia volta e entrou novamente na sala, me deixando trêmula de ódio. Até quando eu teria que agüentar as ameaças daquele idiota? 

Uma da tarde. A chuva tinha apertado ainda mais, e apesar das galochas que o pessoal da reserva tinha nos emprestado, a sensação de meus pés afundando na terra ensopada era a mais nojenta possível. Cada passo exigia um esforço considerável pra não afundar naquela papa marrom na qual o chão tinha se transformado. Quando meu estômago nervoso já começava a dar fracos sinais de fome, os guias nos encaminharam até o grande refeitório que havia na reserva, onde um almoço quase decente nos esperava. Comi um pouquinho de qualquer coisa, só pra não acabar desmaiando naquele chão pastoso, e logo voltamos a explorar aquela selva domada. Tudo que o guia explicava sobre as espécies de plantas e animais que encontrávamos eu já sabia, só nunca tinha visto exemplares vivos de alguns deles, o que não me interessava muito no momento. Por que eu paguei para vir a essa excursão mesmo? Ah, sim, porque um certo professor estava escalado para me acompanhar e eu definitivamente pretendia passar meu dia inteiro com ele, e não com o palerma que o substituiu. Beleza, tudo estava indo de vento em popa na minha vida. 
Enquanto caminhávamos por uma das vias de terra entre as árvores, eu, enjoada de ver tanto verde e marrom ao meu redor, acabei ficando entre as últimas pessoas do grupo, um pouco mais distante do guia e de sua voz irritante. Minha cabeça já estava doendo o suficiente com aquele cheiro insuportavelmente forte de terra e as preocupações que atordoavam minha mente, obrigada. Observando vagamente a vegetação ao meu redor, encontrei um pássaro lindo pousado sobre um galho, e um sorriso fraco surgiu em meu rosto sem que eu percebesse. Suas cores vibrantes não conseguiam camuflá-lo em meio às folhas da árvore onde estava pousado, e apesar da chuva fina, resolvi pegar meu celular na bolsa para fotografá-lo. Como se lesse minha mente, a ave ficou paralisada, e somente após umas três fotos, o animal finalmente levantou vôo. Seria interessante mostrar pra Mica o quão lindo aquele pássaro era, caso ele não tivesse tido a oportunidade de vê-lo quando veio. Isso se eu voltasse a ter uma relação normal com ele, o que eu pretendia conseguir em breve. 
Quando fui guardar meu celular irritantemente sem sinal num dos bolsos externos da mochila, percebi que meu chaveiro tinha sumido. Quem tinha me dado aquele chaveiro tinha sido minha avó, que já tinha falecido. Era uma bailarina linda com uma perna flexionada, e os pés firmemente curvados, numa ponta perfeita e postura igualmente correta. Aquele chaveiro sempre tinha sido meu xodó, mesmo antes da morte da vovó, e depois mais ainda. Me lembro bem de tê-lo visto quando peguei o celular pra ver as horas no almoço, e agora ele não estava mais lá. Ou seja, eu o tinha perdido pelo caminho. E eu não pretendia ir embora daquela reserva sem ele. 
Dei meia volta, vasculhando aquele chão semi líquido em busca de algo rosa claro, mas não achei nada por perto. Alguns passos depois e ainda assim nada. Olhei pra trás e pude ver o grupo, distante, mas ainda visível, se afastando lentamente. Tranqüila quanto a não me perder, continuei caminhando devagar na direção oposta, preocupada com meu chaveiro, até olhar para trás outra vez um tempinho depois e ver que o grupo tinha sumido. Legal, eles deviam ter virado em alguma curva sem que eu visse. Sem a menor intenção de me perder naquela pseudofloresta, mas sem a menor intenção de deixar meu chaveiro pra trás também, hesitei por alguns segundos antes de voltar a seguir o grupo. Achando-os, seria só uma questão de convencer alguém a me ajudar na busca pelo chaveiro. 
Caminhei rapidamente na direção da minha turma, e logo pude ouvir a voz não muito distante do guia. Virei numa curva um pouco a frente, desatenta por ainda vasculhar o chão, e só deu tempo de frear bruscamente quando vi uma pessoa muito próxima vindo na direção oposta. Caraca, ele realmente estava me perseguindo. 
- Eu falei pra não se afastar do grupo – o professor Aguiar rosnou entre dentes, recuperando-se rapidamente da quase trombada – Dá pra fazer esse favor? 
- Eu perdi meu chaveiro – falei, encarando minhas galochas sem a mínima intenção de olhar pra ele, a pessoa menos adequada para me ajudar. 
- E eu com isso? – ele perguntou, e eu pude ver aquela típica expressão de deboche em seu rosto – Compra outro. 
- Não dá, tem que ser aquele – exclamei, assim que ele fez menção de me dar as costas e sair andando, e o vi voltar a me encarar, entediado – Tem valor sentimental. 
O sr. Aguiar virou seu corpo totalmente na minha direção, e apenas me encarou por alguns segundos com os olhos brilhando de desdenho. 
- Mil perdões, eu não sou o Borges – ele sussurrou, cínico – E eu não dou a mínima pros seus sentimentos. 
Ergui meu olhar pra ele, sem saber direito que cara fiz. Só sei que não deve ter sido das melhores, porque um sorrisinho vitorioso surgiu em seu rosto antes que ele se virasse e começasse a caminhar na direção do grupo. Lancei um olhar triste pra trás, tentando me conformar com a perda do chaveiro, e segui a mesma direção que ele, sem ousar olhar na cara daquele cretino. Meu dia estava sendo realmente ótimo. 


Continua...

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