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13 outubro 2012

LuAr Biology


Capitulo 27
- Ih, que cara é essa? – Sophia perguntou, na hora da saída, quando se sentou ao meu lado na mureta que ficava em frente ao colégio – O Aguiar aprontou alguma? 
Neguei com a cabeça, encarando o nada com a expressão fechada. Os 50 minutos da aula de laboratório tinham conseguido ser mil vezes mais tranqüilos que os poucos minutos em que eu e Mica brigamos na aula de teoria, fora meus olhares carregados de ódio pro Aguiar durante sua explicação. O olhar sério de Mica me censurando não saía da minha cabeça, e aquele sentimento de injustiça continuava dançando dentro de mim.
- O que foi então? – ela insistiu, e eu nem precisei responder. Assim que ela terminou de falar, Mica saiu do colégio, e logo nossos olhares se encontraram. Seus olhos pretos estavam sérios, e eu sustentava seu olhar, igualmente chateada. Mica só tirou seus olhos dos meus quando foi atravessar a rua, e não ousou olhar na minha direção até arrancar com o carro e deixar a escola. Assim que ele sumiu de vista, abaixei a cabeça e soltei um suspiro triste, de olhos fechados.
- Acho que já entendi o que aconteceu por aqui – Sophia murmurou, ainda olhando na direção pra onde Mica seguiu com o carro – Vocês brigaram.
Quando abri a boca pra começar a contar, minha mãe chegou pra me levar pra casa. Apenas sorri fraco pra Sophia, tentando não parecer tão arrasada, e balancei a cabeça negativamente.
- Depois a gente conversa – murmurei, me despedindo dela e entrando no carro.

Eu não tenho nada contra excursões escolares. Só odeio o tipo de organização que a minha escola usava. Nem pra ter um pouco de respeito por quem tá estudando nos andares de cima, sabe. A diretora tem que ficar berrando os nomes dos alunos naquele microfone ensurdecedor pra todo mundo ouvir, parece que é uma necessidade vital pra ela. Como se eu me importasse em saber se Colin McPhearson já estava na escola, francamente. Pra ser honesta, eu só me importava com uma coisa. Micael Borges.
Após um dia inteiro sem conseguir tirar aquele desentendimento da cabeça, refleti muito sobre como devia agir dali em diante. Ele até que podia estar errado, mas não era por maldade.Mica realmente acreditava que o professor Aguiar era um cara legal, e eu não duvido nada que ele tenha seus meios de enganar os outros. Tava pra nascer cara mais cafajeste que ele, fato. Soltei um suspiro arrependido, encarando vagamente a janela ao meu lado, de onde eu podia observar o pátio lotado de alunos do primeiro ano. Mal tinha começado a primeira aula e o professor de química já estava escrevendo na lousa, mas eu não me importava com o sr. Brown naquele momento. Outro professor estava prendendo minha atenção, e ele não parecia estar tendo a menor dificuldade em organizar a fila de pirralhos do primeiro ano que logo entrariam num dos enormes ônibus estacionados na frente da escola para passar um dia inteiro em sua companhia na reserva ambiental.
Continuei observando Mica lá embaixo, ajudando o último aluno fora de sua fila a achar seu lugar, e assim que terminou, colocou as mãos nos quadris e jogou a cabeça pra trás, encarando o céu nublado. Estava doendo em mim vê-lo pela primeira vez depois da discussão de ontem, e tudo que eu queria fazer era pular por aquela janela e me desculpar por tudo. Mas eu estava presa na aula de química, e ele estava preso àquela excursão idiota. Mica lentamente se virou até ficar de frente para o prédio de onde eu o olhava, e pra minha surpresa, seus olhos não hesitaram em se cravar na janela da minha classe. A janela por onde ele podia me ver também, mesmo que de uma certa distância. Seu olhar, apesar de distante, conseguiu me deixar pior do que eu já estava. Sua expressão ao me encarar era séria, mas pelo menos ele não parecia tão bravo quanto ontem. Por que eu tinha que deixar meu orgulho ser maior que o que eu sentia por ele? Você gosta de uma idiota, Borges, fato.
Mais atrás, a srta. Juju já encaminhava alguns alunos na direção da saída da escola, e pude ver seus lábios chamarem o nome de Mica. Voltei a encará-lo, me odiando pra sempre, até que ele se virou na direção dela e a ajudou com a organização dos alunos. Merda. Essa piranha ia ter seu dia de sorte hoje, passando o dia todo ao lado de um homem lindo, perfeito e insatisfeito com a garota infantil com quem tinha escolhido se relacionar. Bela oportunidade de tirar uma lasquinha. Fechei meus olhos quando ele sumiu do meu campo de visão, tentando afastar o ciúme que ardia neles, e voltei a me concentrar na matéria de química. 

- Você vai mesmo amanhã? – ouvi Sophia perguntar, na hora da saída, e assenti devagar, observando os carros que passavam. Não tinha como não encarar o carro vazio de Mica, estacionado no lugar de sempre, e não querer que ele subitamente saísse da escola, com seu sorriso habitual, e atravessasse a rua naquela direção. 
- Tem certeza de que não vai mesmo poder ir? – suspirei, olhando pra ela com cara de nada – Ter alguém com quem conversar ia me fazer bem… Eu acho.
- Não, minha mãe não quer que eu vá e acabe sendo atacada por mosquitos do tamanho de azeitonas ou coisas do tipo – Sophia respondeu, cruzando os braços e revirando os olhos – Você conhece minha mãe, super protetora até a medula.
Não deu pra não rir um pouquinho com aquele comentário mais do que verdadeiro. A sra. Abrahão costumava ser bem enérgica quando o assunto era proteger Sophia.
- Que exagero, mosquitos do tamanho de azeitonas só existem na África – chutei, com um sorriso fraco no rosto.
- Eu sei disso, mas minha mãe não sabe – Sophia resmungou, um pouco irritada – Já tentou dizer isso a ela? Vai entrar por um ouvido, ela até vai fingir pensar no seu caso, e depois vai sair pelo outro lado.
Ri mais um pouco, e ela logo caiu no riso comigo. Só ela mesmo pra me fazer rir naquele estado deplorável no qual eu me encontrava por dentro.
- Você falou com o Borges hoje? – ela murmurou, voltando a ficar séria, e senti meu estômago revirar. Eu tinha telefonado pra ela na tarde anterior e tinha contado tudo que tinha acontecido depois da aula de teoria. Sophia concordou comigo, e disse que eu devia contar tudo que o Aguiar tinha aprontado, mesmo correndo o risco de Mica não acreditar em mim. Durante o resto do dia, fiquei pensando no que deveria fazer, e decidi que iria seguir o conselho dela. Só não tive a oportunidade de conversar com ele ainda.
- Não – respondi, sem olhar pra ela – Ele tá na excursão hoje, lembra?
- E amanhã é a sua – Sophia disse, e eu pude sentir seu olhar tristonho sobre mim – Você vai à casa dele nessa sexta?
- Só vou se ele me chamar – falei, dando de ombros tristemente - Não vou simplesmente aparecer sem ter sido convidada.
Desde a primeira vez em que fui à casa dele, não tinha deixado de passar as tardes de sexta-feira lá uma vez sequer, nem que fosse pra ajudá-lo com a correção de algumas provas e trabalhos enquanto conversávamos. Talvez essa fosse ser a primeira vez em que não nos veríamos, e era tudo culpa da minha imaturidade. Palmas pra mim.
- Eu acho que ele vai te chamar sim – Sophia me encorajou, deitando sua cabeça em meu ombro de um jeito carinhoso e até um pouco engraçado – No mínimo pra vocês se resolverem.
- Assim espero – sorri fraco, olhando vagamente os carros que passavam pela rua, com o pensamento a algumas horas de distância dali.

- Lua Blanco!
Ergui minha mão assim que a diretora berrou meu nome no microfone, entediada e com todos os tipos de sentimentos negativos em relação àquela excursão idiota. Me senti ainda pior quando o professor Araripe, com sua usual cara de quem tinha estrume de vaca debaixo do nariz, indicou que eu já podia ir para o ônibus com um aceno de mão. Ajeitando minha pequena mochila no ombro, andei vagarosamente até o veículo, como se eu pudesse evitar aquela tortura se andasse devagar. Como eu era tosca algumas vezes.
- Eu já mandei você escolher um lugar e se sentar, Maria – ouvi uma voz murmurar assim que me aproximei do ônibus, e quando cheguei à porta, vi o professor Aguiar e a Maria conversando a uma distância menor do que a recomendada. E pela cara de dor de barriga dela, o clima não era dos melhores. 


Continua...

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